‘Gastei R$ 1 milhão’ e ‘o cargo é nosso’: as mensagens apreendidas pela PF no inquérito sobre vereadora suspeita de compra de votos com apoio de facção
Tatiana Medeiros, do PSB, foi presa na quinta-feira (3) durante a Operação Escudo Eleitoral. Nesta sexta-feira (4), em audiência de custódia, o juiz manteve a prisão da vereadora e ela se encontra em alojamento da Polícia Militar, no Quartel do Comando Geral.Diálogos encontrados pela Polícia Federal (PF) revelam detalhes do suposto esquema de financiamento da campanha eleitoral que elegeu a vereadora de Teresina Tatiana Medeiros (PSB). Mensagens de texto, áudios e comprovantes de Pix apontam, conforme investigação, indícios de compra de votos com recursos de uma organização criminosa (veja prints abaixo). A parlamentar foi presa nessa quinta-feira (3).
Procurado, o advogado da vereadora, Édson Araújo, afirmou que “não é possível discutir todos os pontos da defesa com a imprensa” e reforçou que “todas as questões técnicas e pertinentes ao caso serão tratadas nos autos”.
O g1 não localizou as defesas de Alandilson Cardoso Passos e Stênio Ferreira.
‘Gastei R$ 1 milhão’
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‘Gastei R$ 1 milhão’ e ‘o cargo é nosso’: as mensagens apreendidas pela PF no inquérito sobre vereadora suspeita de compra de votos com apoio de facção — Foto: Divulgação
De acordo com o inquérito, no dia 24 de outubro de 2024, o namorado da vereadora, Alandilson Cardoso Passos, preso desde novembro de 2024 por suspeita de tráfico de drogas afirmou a um amigo que gastou mais de R$ 1 milhão com a campanha que elegeu Tatiana Medeiros.
A PF afirma ter identificado elementos que sugerem o envolvimento de Alandilson com tráfico de drogas e organizações criminosas. Por isso, o dinheiro fornecido por ele seria oriundo do crime organizado.
Em conversa com a vereadora Tatiana Medeiros três dias depois, em 27 de outubro de 2024, data do segundo turno das Eleições 2024, o homem cobra o valor gasto. A parlamentar afirma que vai pagar e chega a dizer que venderá o carro.
Veja abaixo alguns trechos da conversa:
- T: Me usou
- A: Fala mais
- T: Maldito
- A: Tu que me usou
- T: Mas tu vai pagar por isso
- A: Xinga mais
- T: Caro
- A: Me usou foi tu
O casal continua a discussão.
- T: Desde quando a campanha acabou, tu joga na minha cara direto
- T: A porra dessa política
- A: Tu tá me acabando
- T: Foi a mesma coisa de ter pego dinheiro com qualquer um
- A: Me compara não, cara
- T: Mas eu vou te pagar
- A: Viu? Me respeita
- T: Vou mandar vender meu carro e te dar
- T: Queria me humilhar por conta dessa migalha, mas eu fico de pé e vou te pagar. Toda discussão tu joga na cara a merda dessa política, mas nunca mais, tu nunca mais vai jogar na cara. Arrependimento de ter feito isso. Nunca imaginaria que tu teria esse caráter. Mas eu vou te pagar, desgraçado.
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Namorado solicitava comprovantes de votação
O inquérito inclui também conversas entre Alandilson e eleitores, que enviavam comprovantes de votação e cobravam pagamentos ao namorado da vereadora.
“Há ocasiões em que Alandilson exige que os cooptados enviem fotos do título eleitoral, do comprovante de votação e, se possível, que filmem a urna eleitoral durante o voto. Em alguns casos, pergunta aos eleitores qual roupa a candidata Tatiana Medeiros usa na foto da urna eletrônica, a fim de ter o controle de quem realmente votou em cada sessão eleitoral. Uma vez confirmado o voto, Alandilson realizava pagamentos no valor de R$ 100”, diz trecho do inquérito.
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‘Gastei R$ 1 milhão’ e ‘o cargo é nosso’: as mensagens apreendidas pela PF no inquérito sobre vereadora suspeita de compra de votos com apoio de facção — Foto: Divulgação
Padrasto como operador financeiro
A investigação da PF revela que o padrasto da vereadora Tatiana Medeiros, Stênio Ferreira, é apontado como operador financeiro do esquema criminoso. Ele foi afastado das funções públicas que exercia na Secretaria Estadual de Saúde e Assembleia Legislativa do Piauí.
“Em chat WhatsApp, é possível perceber que seu padrasto realiza operações financeiras a pedido da parlamentar. O investigado repassa à vereadora comprovantes de saques programados, com valores elevados, de R$ 20 a 50 mil”, diz trecho do inquérito.
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‘Gastei R$ 1 milhão’ e ‘o cargo é nosso’: as mensagens apreendidas pela PF no inquérito sobre vereadora suspeita de compra de votos com apoio de facção — Foto: Divulgação
Vereadora presa
A vereadora Tatiana Medeiros (PSB), suspeita de ligação com uma facção, passou por audiência de custódia nesta sexta-feira (4) e teve a prisão mantida pelo juiz Luís Henrique Moreira Rêgo, do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) em Teresina.
A parlamentar encontra-se afastada da Câmara Municipal de Teresina (CMT), por determinação da Justiça Eleitoral do Piauí.
Além disso, a Justiça Eleitoral proíbe que ela e outros dois investigados – que ocupavam cargos em comissão na CMT, Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) e Secretaria de Saúde do Piauí (Sesapi) – frequentem esses locais e mantenham contato com os servidores.
Tatiana fez estreia na política em outubro de 2024, quando foi eleita para o primeiro mandato na Câmara Municipal de Teresina (CMT), com 2.925 votos. A parlamentar é natural da capital piauiense e atua também como advogada e filantropa na ONG Vamos Juntos. G1-PI