
O Piauí registrou um aumento de 17,6% nos eventos de violência e de 4,8% nas mortes de mulheres (homicídio e feminicídio). Teresina concentrou 29,3% das vítimas totais. Os dados são da Rede de Observatórios da Segurança do Brasil que monitora a segurança pública de nove estados.
Com isso, o estado ainda enfrenta desafios para combater a violência de gênero. As estatísticas mostram que nenhuma mulher está segura quando se observa os dados que apontam 182 casos entre 2024 e 2025.
O Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo (8), refresca a memória de que o cenário ainda é de temor e insegurança em um país que historicamente ainda mata mulheres.
O MeioNews reuniu três mulheres que trabalham na linha de frente do combate ao feminicídio e que entendem a dor de perder a vida de uma mulher para esse crime.
O AMOR NÃO MACHUCA, NÃO MALTRATA E NÃO VIOLENTA
“O amor não machuca, não maltrata e não violenta”. Esta é a visão da delegada Nathália Figueiredo, especialista no combate ao feminicídio, que atua com pulso firme contra a violência de gênero no Piauí.

Delegada Nathália Figueiredo – Foto: Raíssa Morais/MeioNews
Para ela, o ciclo da violência precisa ser rompido e o feminicídio é apenas a ponta de uma progressão da violência. Figueiredo explica que esse tipo de crime é muito mais complexo por tratar de questões estruturais e culturais.

Fachada da Polícia Civil do Piauí – Foto: Raíssa Morais
“A gente enfrenta uma maior dificuldade justamente pela complexidade desse tipo de crime, que vem de um contexto de outras violências que progridem e que, quando não há o rompimento do ciclo, a gente fatalmente pode chegar ao feminicídio. É mais complexo ainda porque não é como os outros crimes, as outras formas de homicídio”, detalhou Nathália.
A delegada também relata que é comum que mulheres tentem retornar a relações abusivas, mas que o julgamento social, o preconceito e a falta de apoio familiar impactam nesse processo. Para mulheres nessa situação, ela faz um alerta:
“Uma relação que não te traz felicidade, que não te valoriza, não é uma relação, querida. Existe uma vida para além dessa violência. O primeiro passo não vai ser fácil, mas eu tenho certeza de que essa segunda fase é muito mais libertadora e reconfortante”, alertou a delegada.
RESPONSABILIDADE COLETIVA
Para a coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Malena Alves, a responsabilidade pelos crimes de feminicídio é coletiva.

Coordenadora Malena Alves – Foto: Raíssa Morais/MeioNews
“Todos nós somos responsáveis. Então, quando a gente não se responsabiliza, quando a gente não entende que isso é um fator cultural, que isso é um fator social, que ele precisa ser transformado, a gente continua nesse mesmo passo de aumento dos feminicídios”, disse Malena.
Cerca de 88% das mulheres piauienses não denunciam casos de violência, de acordo com dados da Segurança Pública. Malena afirma que muitas mulheres demoram para reconhecer os abusos quando eles ainda são psicológicos, mas que essa mudança precisa partir da sociedade e que a cultura precisa ser transformada.

Fachada do NEVIM – Foto: Raíssa Morais/MeioNews
“Porque muitas vezes as pessoas falam que o problema é a cultura e que não adianta fazer nada. Mas quem é que faz a cultura? Não somos nós? Então, a gente tem que entender que isso tem que partir de cada um de nós, da vontade de transformar essa realidade”, afirmou a coordenadora.
“CHEGA, NÃO QUERO MAIS. ACABOU!”
A apresentadora e jornalista Karla Berger sabe bem o que é sentir na pele o gosto amargo da violência. Vítima de violência doméstica, Berger utilizou sua voz para dar palco a outras mulheres ao assumir a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres, em 2020.
“Eu já fui vítima de violência doméstica na minha juventude. Então, quando você sofre a violência, você entende um pouco o que é essa dor. Para mim, como gestora pública, entender que eu estava ali naquele momento foi muito mais do que estar à frente de uma secretaria, mas eu entendi que ali eu tinha uma missão de vida”, comentou Berger.

Karla Berger enquanto secretária de mulheres – Foto: Redes Sociais/Reprodução
O Brasil está na 133ª posição no ranking global de representação feminina nos parlamentos. Os dados revelam uma estatística desanimadora. Além de enfrentarem dificuldades para se inserir nesse meio, mulheres ainda precisam enfrentar a violência política de gênero. Berger sabe bem o que é isso:
“Eu acredito que muitas mulheres não têm coragem de falar e muitas acabam não tendo a certeza de entrar na política porque sabem que vão sofrer. É importante que a gente entenda que esse é um problema crônico. Então, assim, não é a pessoa. É o sistema que não funciona”, afirmou a comunicadora.

Karla Berger enquanto gestora da secretaria – Reprodução/Redes Sociais
Para ela, as mulheres devem lutar pelo direito de existir e de ter voz: “A gente precisa combater por nós mesmas. A gente precisa chegar e dizer: “Chega. Não quero mais. Acabou’”, finalizou Berger.
ATÉ QUANDO?
Dados alarmantes escancaram que o Brasil ainda precisa avançar no combate à violência de gênero, seja de forma política, institucional ou estrutural.
Histórias como as da delegada Nathália Figueiredo, da pesquisadora Malena Alves e da jornalista Karla Berger representam uma bandeira dolorosa na luta contra o feminicídio e reverberam um questionamento inquietante: “Até quando mulheres serão vítimas de violência?”
Em caso de violência, busque ajuda. Por meio do Disque 180, do programa “Ei, Mermã! Não se Cale” ou de delegacias especializadas no atendimento a mulheres.
MEIO NORTE
