
Quando foram batizar o projeto que tinham criado juntos, em 2023, os estudantes piauienses Andressa Maria dos Santos, 18, e Wenner Batista da Silva, 18, mal sabiam que ele sintetizaria a dura caminhada de ambos que os levaria a
São Paulo e a Nova York (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/nova-york/).
Fonteviva – Renascendo com a Água consiste em reutilizar a água da lavagem de roupas de máquinas e tanquinhos, armazená-la em reservatório ou balde, filtrála e bombeá-la para o telhado por uma mangueira com microfuros.
A solução caseira é bálsamo na crise climática que faz o Piauí durante os quatro últimos meses do ano ter sensação térmica de 45ºC. A fonte consegue, em 10 minutos ativa, baixar a temperatura na casa em 8ºC. O sistema foi criado pelos jovens em programa na Aegea, empresa de saneamento. Foi lá que se conheceram e embarcaram na aventura de inovar.
O sistema, com versão manual (orçada em R$ 273) e com automação (R$ 355,53, com sensores de temperatura que ligam e desligam o sistema automaticamente), levou Andressa e Wenner a vencerem concurso na empresa e a etapa nacional.
Eles exibiram a solução até em Nova York, na Genius Olympiad, em junho.
Com infâncias marcadas por duras experiências, Andressa e Wenner sabem que a Fonteviva, tanto quanto ajudar brasileiros em meio à crise climática, pode mudar suas vidas.
‘SONHO EM VOLTAR PARA A MINHA CIDADE E DAR OPORTUNIDADES A OUTROS JOVENS’
Depoimento de Andressa Maria dos Santos Sousa
“Sou de família simples e amorosa. Nasci em Luzilândia (PI), mas fui criada em Madero (PI). Tive que amadurecer cedo, aos 6 anos, pois meus pais se separaram, minha mãe precisou trabalhar fora, e eu tinha que cuidar da casa e do meu irmão (8 anos). Para mudar algo, eu tinha que estudar e me comunicar. Um dia eu seria ouvida. Eu sentia isso. Tinha uma ONG, chamada Deus Proverá, que foi meu refúgio. Entrei nela e passei a estudar. Aí consegui bolsa numa escola chamada Disneylândia, após eu vencer uma das minhas seis Olimpíadas de Matemática.
Tudo ia bem até que, há três anos, tivemos que nos mudar para Teresina (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/teresina/). Meu irmão passou no vestibular de medicina (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/medicina/), e a gente largou tudo para vir com ele. Minha mãe tinha só R$ 25 no bolso. Então fiz doces e fui vender na rua. Na época, passamos fome. Tem até marca na parede do carvão que a gente usou para para acender a luz.
Mas, um dia, um senhor ouviu minha história e me deu bolsa para estudar em uma das melhores escolas da cidade. Foi lá que indicaram que eu me inscrevesse no Pioneiros. E, semanas depois, recebi ligação dizendo que eu fui selecionada. Nesse dia, 6 de junho de 2023, chorei muito porque eu não tinha vendido nada e me ajoelhei no chão e pedi uma oportunidade a Deus. Eu prometi ali que, se Ele me desse, eu ia fazer de tudo para valer a pena.
E estou aqui. Foi nesse programa que eu conheci o Wenner, que se tornou meu parceiro de jornada, meu amigo e tem uma inteligência surreal. A gente veio de baixo, as nossas mães são empregadas domésticas. Compartilhamos da mesma garra. Trabalhamos dia e noite, madrugada, cerca de dois meses para botar o projeto de pé. A aplicação se deu na casa dele.
A minha avó teve 17 netos e só 2 chegaram a faculdade. Eu tentei, passei, mas não tinha dinheiro. Um dia voltarei à minha cidade e montarei organização para jovens, para que eles possam ter chances, como eu tive, e que possam sonhar.”
‘COM NOSSO PROJETO, EU QUERO AJUDAR MUITAS PESSOAS QUE SOFREM COM CLIMA(HTTPS://WWW1.FOLHA.UOL.COM.BR/FOLHA-TOPICOS/CLIMA/)’
Depoimento de Wenner Batista da Silva
“Sou de Teresina e tive uma infância difícil. Não passei fome, porque meu pai, pedreiro, e minha mãe, empregada doméstica, trabalhavam. Mas a situação era precária e os levou a doarem um irmão meu. E tenho mais três irmãs. Então não tive tudo o que gostaria. Brinquedos que eu tinha eram os que patrões de minha mãe davam, já quebrados.
Eu desmontava esses brinquedos para ver como poderia consertá-los. Ali fui entendendo elétrica e eletrônica. Eu não tinha computador. Montei o meu, comprando cada peça quando eu tinha dinheiro. Para isso, abri negócio com
minha mãe, de venda de lingeries. E fazia bicos de design para comerciantes. Aí eu entrei no Jovem Aprendiz e lá eles davam bolsa. Com ela, comprei uma bicicleta, para ir à escola. E ela me ensinou muito. Eram mais de 5 km
pedalando para ir. Eu vi que a bicicleta é como a vida. Para ela andar, é preciso fazer esforço e depois deixar fluir, controlar a velocidade e o trajeto. E poucas coisas são tão boas quanto sentir o vento bater na gente e você seguir adiante.
Eu ganhei bolsa para o projeto Pioneiros. E a empresa dava transporte para voltar para casa. Eu e Andressa morávamos mais longe e falávamos sobre nossas trajetórias. Ao formar duplas para o projeto, ela propôs fazermos juntos. É mais comunicativa. Eu sou da criação.
Tivemos 15 ideias e fomos afinando até ficar a do sistema de resfriamento que aproveita água que seria descartada. E aí fiquei madrugadas inteiras para testar e montar o sistema. Fiz na minha casa, pois é retrato das casas do Piauí. Dentro dela, faz 50ºC. Poucos têm ar-condicionado. Minha mãe até brinca que nossa casa é a única que chove todo dia, devido ao resfriamento.
Aí a gente ganhou competição na Aegea e a etapa nacional. Andamos de avião pela primeira vez. Deu um frio na barriga, mas depois foi como andar de bicicleta, deixar fluir. E fomos convidados para a Feira Brasileira de Ciências e
Engenharia e, depois, para exibir o projeto em Nova York (EUA). Tive que aprender inglês numa semana. Foi um esforço enorme.
Agora só penso em melhorar o sistema. É preciso fazer esse esforço, para levar a solução a quem sofre com o clima.”
